segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Sobre o Orçamento 2014 da CMTN


Orçamento CMTN para 2014

Declaração de voto

Comecemos pelo princípio. O Orçamento é o documento de gestão mais importante do município, o qual deve definir as principais opções orçamentais e políticas para o próximo ano. Assim, paralelamente aos aspectos mais estritamente técnicos que têm a ver com a realidade e com perspectivas realistas, neste documento devem constar as principais apostas do município e o caminho que se pretende trilhar em 2014.

Verifiquemos em primeiro lugar o aspecto do rigor orçamental ou da falta dele. A dotação orçamental para 2012 era de 61.789 milhões, tendo sido reduzida para 52.385 milhões para 2013 e para 2014 a dotação é 33.524 milhões. Esta tendência de redução da dotação tem constituído um aspecto positivo o qual vem dar razão às posições da CDU que desde há cerca de 20 anos tem vindo a dizer que os Orçamentos municipais estão substancialmente empolados, com receitas em valores mirabolantes, completamente irrealistas. Sempre dissemos que a previsão de arrecadação de receitas era profundamente irrealista e o inerente empolamento orçamental era absolutamente inaceitável criando de forma artificial orçamentos e planos de actividade sem qualquer rigor.

Aliás, também recentemente a IGF, em Julho de 2013, veio afirmar precisamente o que a CDU já anda a dizer há muitos anos, sem que até agora tenha sido ouvida por quem gere a Câmara. Diz o Relatório da Inspecção Geral de Finanças “os orçamentos municipais foram sistematicamente empolados, tendo as receitas de capital evidenciado, em 2011, um índice de execução de apenas 25%, do que decorre um elevado risco, pois permite e potencia, de forma artificial, a realização/existência  de elevados montantes de despesa para o pagamento dos quais não existem disponibilidades financeiras”.

Se verificarmos a minha declaração de voto do ano passado concluímos que a minha afirmação de que o orçamento para 2012 estava empolado em 30 milhões de euros e o de 2013 estaria empolado em 20 milhões estava absolutamente correcta.

De facto basta verificar que a dotação prevista para 2014 baixou em cerca de 20 milhões de euros.

Ora esta tendência de reduzir o valor das verbas a montantes realistas atribui maior rigor ao orçamento, e isso é positivo.

Mas mesmo assim, ainda existem verbas cujo montante continua empolado, embora em menor dimensão. Está neste caso o valor previsto ao nível dos Impostos Indirectos – Loteamentos e Obras – 2,451 milhões quando em 2013 se orçamentaram 2,309 milhões mas apenas se arrecadaram 41.557 euros. Quer dizer, a verba prevista para 2014 ainda é superior à verba prevista para 2013. Ora, isto não faz qualquer sentido quando se sabe que a conjuntura de crise económica irá manter-se ou mesmo agravar-se durante o próximo ano.

Mas esta falta de rigor orçamental também se verifica na rubrica Venda de Bens de Investimento quando se orçamenta o valor de 1,010 milão sendo que se sabe que do valor previsto para ser arrecada em 2013 nem um cêntimo se recebeu.

Portanto, estes aspectos deveriam ser adequados ao rigor que este documento deve ter, o que infelizmente ainda não acontece.

A Memória Descritiva merece-nos os seguintes comentários:

Independentemente do seu conteúdo, o simples facto de existir uma Memória Descritiva já é um dado positivo, pois nos últimos anos pura e simplesmente não existia.

De qualquer modo ela não é mais do que um conjunto desgarrado de intenções sem que se perceba quais são as apostas fundamentais que vão guiar a intervenção municipal no próximo ano.

Sobre o PAEL e o Plano de Saneamento Financeiro não nos podemos esquecer de que o município está agarrado não só do ponto de vista financeiro, mas também orçamental e político durante os próximos 14 anos. Houve essencialmente uma transferência da dívida de curto prazo para médio e longo prazo, mas a dívida tem que ser paga e muita dessa responsabilidade vai recair sobre os ombros dos munícipes e vai apertar-se ainda mais o garrote de asfixia financeira sobre o município durante os próximos três mandatos.

Aquilo que consta da Memória Descritiva como sendo que “os próximos quatro anos devem ser orientados para uma Sustentabilidade Financeira para a Qualidade de Vida e para a Solidariedade Social como principal fórmula de uma maior qualificação da Identidade Local não quer dizer rigorosamente nada pois não passam de frases feitas sem qualquer tradução prática que seja visível no Orçamento.

Sobre a “revisão ao protocolo existente” com a Associação Humanitária dos Bombeiros Torrejanos, devo salientá-la com aspecto positivo o que só vem dar razão à CDU quando disse que havia um problema de relacionamento pessoal entre o Presidente desta Associação e o anterior Presidente da Câmara. Com efeito, a CDU sempre defendeu a ultrapassagem deste problema com a colocação de lado dos problemas pessoais de molde a poder-se concretizar a revisão do protocolo. Agora esta perspectiva vem dar razão à CDU e saudamo-la.

Sobre a aposta nas Zonas Industriais considero que é um aspecto positivo que também surge no seguimento de denúncias formuladas pela CDU relativamente ao abandono a que estas áreas industriais têm estado votadas pelo município. Tendo em consideração a grave crise económica criada pelo governo que destrói todo o país e que aumenta o desemprego é importante que sejam implementadas medidas concretas a este nível. Mas o problema é que a avaliar pelas reais apostas orçamentais duvido que isso aconteça.

Outro aspecto importante é a aposta na máquina operativa do município que a CDU vem defendendo há anos. De facto, importa apostar em obras por administração directa pelo que é fundamental, mais do que adquirir, manter em condições operacionais o equipamento existente.

Sobre o Apoio ao Associativismo é importante ressuscitar o apoio institucional às Bandas Filarmónicas, Ranchos Folclóricos e Choral Phydellius, mas não é suficiente. Relembre-se que este apoio já existiu durante vários anos e com bons resultados, tendo sido cortado abruptamente e sem que tenha sido substituído por outro tipo de apoio. As colectividades, que são as únicas entidades que vão fazendo mexer as comunidades um pouco por todo o concelho, precisam de muito mais do que o apoio institucional.

Aliás, este apoio não pode ser entendido pelo município como forma de se desresponsabilizar perante as colectividades. O Apoio da Câmara ao movimento associativo deve ser concretizado em função do Regulamento em vigor no município, porque não nos podemos esquecer que existe um Regulamento que a própria Câmara não está a cumprir e que devia fazê-lo.

Além disso, é errada a perspectiva de que os clubes desportivos têm que pagar 50% dos custos de utilização dos equipamentos municipais à Turrisespaços, pois estes custos devem ser suportados pela Câmara, uma vez que estas entidades substituem-se ao município e ao Estado no desenvolvimento desportivo dos munícipes.

Sobre a reabilitação do centro histórico de Torres Novas e Lapas (não nos podemos esquecer que não se trata só do centro histórico da cidade) a aposta é importante, mas não se percebe bem qual seja. Antes existe nos documentos um imenso vazio e despreocupação quanto a este assunto, o que é grave não só pela situação dramática de quase total destruição do centro histórico, mas também por sabermos que no próximo quadro comunitário de apoio haverá apoios comunitários para a reabilitação do edificado e valorização destas áreas.

De salientar que ao contrário do que se afirma, a obra do Convento do Carmo nada tem a ver com a reabilitação do centro histórico. Antes pelo contrário, a concretização desta obra ainda causará um maior despovoamento do centro histórico pois com a saída da Câmara Municipal dos actuais Paços do Concelho o centro histórico perderá ainda mais vida.

Sobre o projecto na área do turismo designado “Conquista-te”, o mesmo não passa de uma intenção sem concretização orçamental que permita olhar o mesmo com o mínimo de seriedade.

Sobre o papel da Turrisespaços na gestão dos equipamentos municipais importa considerar que esta é uma aposta errada, pois tais equipamentos deveriam ser geridos pelo próprio município e não por qualquer empresa. Aliás, estamos já a ver quais os resultados dessa gestão no pagamento da sua utilização pelos clubes desportivos, sendo que estes são os principais prejudicados pela empresa municipal.

Aliás, esta tendência absolutamente errada de atribuir os equipamentos municipais à Turrisespaços vai criar mais problemas, perdendo o município qualquer possibilidade de intervir ele próprio através dos seus Serviços Culturais em tudo o que diga respeito à cultura e ao movimento associativo.

Daí que, qualquer novo equipamento municipal de âmbito cultural que o município construa – como será por certo o caso do antigo Mercado do Peixe – será entregue para gestão e exploração à Turrisespaços, o que é absolutamente incorrecto não só no plano dos princípios mas também do ponto de vista da utilização dos citados equipamento pelos munícipes.

Sobre o PAPAF (Programa de Apoio e Promoção à Actividade Física) apenas direi que não é correcto que a Câmara se substitua aos clubes desportivos do concelho e desenvolva actividades em concorrência com estes. O papel do município, neste âmbito, deve essencialmente ser o de apoiar os clubes nas suas actividades pois estes desenvolvem um papel imprescindível nas comunidades em que se inserem.

Cinco aspectos de princípio que motivam o voto contra da CDU quanto a esta proposta de Orçamento:

  1. O aumento de taxas, com especial destaque para o IMI, bem como o aumento das tarifas da água e do saneamento básico, ainda para mais na conjuntura actual de grave crise económica, vai agravar de forma inaceitável a já muito difícil vida dos munícipes;
  2. Perspectiva política errada na condução das obras com comparticipação comunitária com graves consequências financeiras negativas para o município, como é exemplo flagrante o caso da obra do Convento do Carmo;
  3. Apesar do abaixamento da dotação global e da redução do empolamento das receitas no Orçamento, tornando-o menos irrealista, algumas rubricas ainda se encontram bastante inflacionadas;
  4. A manutenção da Turrisespaços custa ao município cerca de 1milhão de euros. Num ano em que a dotação orçamental foi reduzida em cerca de 20 milhões e em que há contenção de custos em diversos níveis, mantém-se o mesmo valor dos encargos municipais em 2013. Trata-se de uma verba insustentável em face das dificuldades financeiras do município;
  5. Insuficiente apoio ao movimento associativo do concelho e inexistente apoio às Juntas de Freguesia, no desenvolvimento das suas actividades e na prossecução dos seus objectivos.

 

Por tudo isto, voto contra.

 

Carlos Tomé, vereador da CDU na CMTN

Torres Novas, 16 Dezembro 2014

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